segunda-feira, 23 de maio de 2011

brasa cinza no céu de azul

E o moço, que era feito céu de azul, nunca mais clareou e me escureceu.
O raso, onde eu lavava o rosto, alargou e afoguei.
E a pele que quente ardia no fogo que era meu virou brasa, de brasa cinza, de cinza o vento espalhou no céu de azul.

Quarto de dormir - Marcelo Jeneci

Essa música num saxofone foi a coisa mais linda que já ouvi. E mais triste também. Deu até um nó bem aqui, ó!

o.Õ

"Ssshhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!
Eles estão dormindo"
"Eles? Eles quem? Aqui no quarto só tem nós dois..."
"Nossos suspiros!"


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"Você tem medo de quê?"
"Ah... de escuro, de cobra, de solidão, de atravessar a rua sem olhar pros lados..."
"E de se perder de mim, não tem?"
"Hum... tenho não."


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"Mente pra mim."
"Não sei mentir pra você"
...
"Mentirinha!"


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"Preciso ir embora."
"Quando você volta?"
"Quando a luz acender."


Black out...

Li e tá aqui

"Que a mulher que eu amo seja amada mesmo que distante, porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade". Eu procuro resposta na arte, mesmo que eu só encontre conforto, é onde continuarei procurando.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

De même

Imagine se todos estivéssemos perdendo os sentidos.
Eu não enxergo mais. Você perdeu o tato. Eles perderam paladar, audição e olfato.
Como não vejo, alguém precisa me guiar. Você não pode, porque me tocar não faz sentido para você.
Eles me guiam, mas é tudo muito complicado.
Sem audição, não há como ouvir minhas solicitações e não posso usar o gestual porque sequer vejo o que estou fazendo.
Não ter olfato parece algo menos pior. Mas sem ele, não poderão sentir que algo cheira mal. Não poderão prever o risco iminente.
A perda de paladar pode ser mais tranquila. A comida é mastigável e, ao ser ingerida, alimenta mesmo assim. Pode-se comer à vontade. Mas não sentir o sabor das coisas pode ser fatal. É mais fácil engolir fel sem saber que gosto possui. Ao passo que também é mais fácil beber os piores venenos sem sentir.
Não ver me obriga a ter cautela. Ter cautela me custa disciplina. Principalmente durante e pós-desespero.
A falta de tato incomoda. Tocar as coisas já não é mais tocar. Não se sente mais. Ao menos na parte física.
Toda a fragilidade se instaura e com ela o princípio do caos e do desajuste. Tal qual vemos hoje em toda parte, por exemplo.
Buzinas soando loucas como se os outros fossem surdos. Impropérios dirigidos a todos os supostos infratores, como se as palavras já não possuíssem sabor.
Nas relações pessoais em geral. Quando acaba, é preferível que alguém fique surdo. Já que não se tem o que falar, também não há o que ouvir. E assim, montam-se totens gigantescos de carrancas de olhos fechados, ouvidos entupidos e por aí vamos...
Mas é claro, minha amiga, que sei que você não vem hoje me socorrer. Está surda, claro. Eu sei disso. Você pediu e agora carrega duas perdas. A falta de tato e a surdez te sobram.
Mas mesmo sem te ver, eu quero dizer algumas coisas.
Quero que saibas que estou aqui. Praticamente parada no mesmo lugar. Te olhando de longe. Esperando que você passe, naquela mesma hora, naquele mesmo lugar. Para te guardar. Para correr e te dar impulso, caso suas asas falhem e você não alce vôo da forma como sempre faz. Para te envolver e, com minhas próprias forças te proteger a cada vez que algo pesado ameaçar te atingir em pleno ar.
Para encobrir-te do sol se suas asas de cera e mel sugerirem derreter ao calor escaldante.
Apenas isso, minha cara. Pois sinto um prazer imenso em ter-lhe conhecido e guardado. Ainda que não me guarde, nem me vigie e menos ainda, me queira por perto. Apesar da surdez, sei que ouve essas palavras. Eu as direi eternamente no meu silêncio.


Mes mots secrets. 



Pardonne-moi... Je n'ai pas ta classe...

Nada Banalité.

Para os amigos bem resolvidos de corpo. No sentido geral.


Em Especial ao Prof° e grande amigo Rafael Rios. Seu sósia no vídeo, querido!

Para meus amigos naturistas

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Trebuchet

Eu quis me matar.
Foi a primeira coisa.
Aí passou. Só precisava me ferir e já bastava.
Mas aí, quis te matar. Jogar uma bomba no seu telhadinho de vidro.
Será que é por isso que todos os textos que faço para você estão em fonte Trebuchet?

França compra documentos de Robespierre em leilão

Paris, 18 mai (EFE).- A França desembolsou nesta quarta-feira cerca de 1 milhão de euros para garantir que um conjunto de manuscritos do dirigente da Revolução Francesa Maximilien Robespierre não saia do país após serem leiloados em Paris.
A medida foi tomada após a comunidade de historiadores e intelectuais franceses ter pedido ao Ministério da Cultura que não deixasse que esses importantes documentos saíssem da França. O Estado, então, fez valer seu direito de preferência de compra e desembolsou 979,4 mil euros (R$ 2,25 milhões), três vezes mais que o preço inicial, para que as cartas e os discursos permaneçam nos Arquivos Nacionais à disposição de estudiosos.
O representante do governo na negociação, Hervé Lemoine, afirmou que abrirá uma arrecadação de fundos para financiar a compra. A Sociedade de Estudos Robesperrianos, encarregada de recolher as doações, anunciou que já conta com 100 mil euros (R$ 229 mil).
Os historiadores se interessaram por um lote que contém discursos, minutas de artigos de imprensa e de relatórios lidos na Convenção e o fragmento de um discurso escrito na véspera da detenção do líder jacobino no qual atacava a conspiração iniciada contra ele e seus próximos.
Além de seu valor histórico, o documento tem um grande valor sentimental, já que no dia seguinte de sua prisão, Robespierre preferiu se suicidar a ter que passar pela guilhotina. Por este conjunto, o Estado pagou 750 mil euros (R$ 1,724 milhão).
Um segundo lote, que custou aos cofres públicos 65 mil euros (R$ 149 mil), contém uma série de correspondências trocadas com seu irmão Augustin que, segundo os historiadores, permitem contextualizar sua ação política no ambiente familiar. No total, são 113 páginas manuscritas que pertenciam aos descendentes do deputado Philippe Le Bas, fiel a Robespierre.
Datados entre 1792 e 1794, os anos mais duros do período revolucionário conhecido como fase do Terror, os documentos do dirigente jacobino permaneceram na coleção privada dos descendentes de Le Bas, longe do olhar dos estudiosos. O Ministério de Cultura reiterou que, uma vez em seu poder, serão digitalizados para torná-los mais acessíveis. Quanto aos originais, irão para os Arquivos Nacionais e para a Assembleia Nacional. EFE


E agora pergunto: Desde quando a História pode ser vendida e/ou leiloada?

Da Filosofia, à gramática e aos amores de 50/50

A Retórica nasceu da Dialética.
Mas quem liga para aquele livro que inicia a estante, tendo um vizinho ensaiando com seu clarinete por horas a fio e um aluno para receber?
Quem se importa se Aristóteles escreveu "A Arte Poética" e a "Arte Retórica" para os alunos de sua própria escola, e depois meio mundo de filósofos se apossou deles para tê-los como espécie de Bíblia do ateísmo e da elevação intelectual?
Não sei. Estou me importando com aquele quadro ali que não terminei de pintar. Outro daqueles que enchem minhas paredes. A falta de móveis aqui se deve mais à quantidade de telas e tintas e pincéis que consomem dinheiro do que à não-necessidade de tê-los para guardar roupas, apoiar cotovelos e mesmo sentar-se.
Curioso é que ouvindo meu vizinho, Aristóteles paira na minha mente. Me faz rir. Talvez pela preocupação em saber se seu nome pertence ao grego clássico ou neohelênico. Século V a.c. é clássico, com certeza. E justamente por isso que fico na dúvida. As proparoxítonas do idioma grego são um pouco restritas, o que, nos "aportuguesamentos", gera erros.
Por exemplo: Perséfone está errado. Claro que, para uma deusa que come as sementes da romã dada por Hades e passa a ser, por um matrimônio, além de deusa da agricultura, a vigilante dos mortos, um nome equivocado não causa espantos.
Hipócrates também está errado. Bem dizem meus avós quando falam que os médicos não sabem do que falam e mal se recordam seus próprios nomes...
Demóstenes é outro erro. E olha que de oratória e retórica Demóstenes entendia...
Isso me traz de volta ao Aristóteles. 
Será mesmo Aristóteles? Aristotéles soa esquisito... 
Mas sem problemas. O iminente toque do interfone, que sei aproximar-se, me deixa inquieta. Cubro o quadro? Acho que meu aluno não vai se importar de ver o rosto de um desconhecido que significa muito para mim estampado ali. O rosto está estampado em todos os quadros mesmo. Atrás do vaso de flores, ao lado do gato, no ombro da moça e na cesta de frutas. Até no que é abstrato, com riscos e curvas, seu rosto está. Disforme. Contrariando sua estampa na minha mente. Nítida. Como seu cheiro na minha própria toalha de banho. Mas ela nunca foi usada por você...
O clarinete toca "Onde anda você" do Vinícius... é a preferida do meu vizinho. Me dá vontade de bater à sua porta e tirá-lo para dançar um bolero. Mas ele teria que largar o clarinete. Além do mais, deixar de pedir açúcar e pedir danças pode ser um passo muito grande. Sequer devolvi sua última xícara.
Errou um compasso. Eu senti.
Hora de abrir mais um pouco a janela, mesmo com o frio. Espero que ele não se importe com uma professora de moletom e meias. Mas falta ar nesse apartamento aqui.
Sei que não se importa. Está preocupado em como pedir uma segunda chance à namorada. "50/50, professora". É o que ele diz. "A culpa, quero dizer. Metade minha, metade dela".
E eu ouço. Abro uma cerveja, um vinho e escuto, balançando de leve a cabeça. Uma mistura de lamentos do clarinete e lamentos do meu aluno. No meio disso, meus próprios lamentos internos de 50/50.
Eu mesma queria outra chance. Mas o rapaz do quadro diz que não. E não fala mais nada. Só se esconde atrás das frutas na cesta. Não quer nem saber se metade também é dele. Mesmo que essa metade seja eu mesma.
Não preciso abrir a porta. "Yo ya conosco el camiño, prof... buenas noches".
"Buenas".
Acabou o ensaio do clarinete. Agora é a vez do meu rádio. Noel.
Depois do vinho, só o Noel me entende. Ele e a fita amarela ou o último desejo.
O último desejo para pintar o quadro. E para fechar a janela também. Para abrir outro vinho e derramar uma ou outra lágrima, que molha a ponta do cigarro que encosta na boca.
A coisa da rotina.
E depois de meia madrugada, de arte, música, bebida e vontade de segundas chances, um pouco de Filosofia não mata ninguém. A menos que esse "ninguém" seja Sócrates, é claro.
Mas acho que nenhuma autoridade me convidaria a suicidar-me. Não com cicuta. O que me lembra de ouvir Criolina, pra lavar a alma com sua música "Veneno".
Já me deixou. Já me envenenei. Sem convite mesmo. E, como último desejo pedi continuar viva. E me joguei nos livros e na confusão mental.
Por isso que o Aristóteles mora ali, na ponta da estante, me vigiando por todo o dia enquanto invento textos e mancho telas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Caixa de solidão

Uma caixa vazia é uma caixa cheia de ar.
Ar e escuridão.
De uma caixa supostamente vazia saem palhaços em molas que assustam à primeira vista, mas que depois divertem. Ou não.
De uma caixa supostamente vazia, saem bailarinos e sons que acalentam e fazem sonhar.
Ainda da mesma caixa supostamente vazia, saem fotografias e pedaços de tentativas de esquecimento.
Dessa caixa vazia saem trechos de solidão. Da solidão que faz querer se trancar em uma caixa escura e vazia.
Mas essa solidão é impossível e inalcançável, pois o escuro mora na caixa. O escuro, um pouco de ar e a própria caixa por dentro mora em si.
Dois corpos não ocupam o mesmo lugar. E um corpo grande e pesado, como é o fardo da verdadeira solidão, certamente arrebentaria o fundo da caixa e deixaria vazar, como uma caixa de Pandora, os frutos de uma relação de amor e ódio, beirando uma cópula, entre o escuro e os medos que a solidão carrega.
Frutos esses, parasitas do imaginário. Dessa relação maior do que simples simbiose é que se alimenta a solidão. Tem quem se apavore com os mortos. Muito justo isso. Eles estão não-sabemos-onde, e tudo o que restou deles encontra-se só e trancado em uma caixa escura.

Logo, uma caixa cheia de solidão e escuro, não é mais uma caixa vazia. É o lar de um Glutão de pesadelos, que tem entranhas feitas de pavor. Pavor da própria solidão. Paura. Em sua pureza insolúvel em água, álcool, maconha ou, por vezes, lágrimas.
Uma caixa vazia é uma caixa cheia de ar.
Ar e escuridão.
A menos que alguém retire a tampa, pois dessa forma, e também fazendo cortes pela extensão da caixa, a luz consegue penetrar. 
Porém, a simples ameaça de uma tentativa de ver o conteúdo da caixa, alimenta o ser que lá habita. Não nos permitindo cortar o lacre, nem puxar a fita.