A Retórica nasceu da Dialética.
Mas quem liga para aquele livro que inicia a estante, tendo um vizinho ensaiando com seu clarinete por horas a fio e um aluno para receber?
Quem se importa se Aristóteles escreveu "A Arte Poética" e a "Arte Retórica" para os alunos de sua própria escola, e depois meio mundo de filósofos se apossou deles para tê-los como espécie de Bíblia do ateísmo e da elevação intelectual?
Não sei. Estou me importando com aquele quadro ali que não terminei de pintar. Outro daqueles que enchem minhas paredes. A falta de móveis aqui se deve mais à quantidade de telas e tintas e pincéis que consomem dinheiro do que à não-necessidade de tê-los para guardar roupas, apoiar cotovelos e mesmo sentar-se.
Curioso é que ouvindo meu vizinho, Aristóteles paira na minha mente. Me faz rir. Talvez pela preocupação em saber se seu nome pertence ao grego clássico ou neohelênico. Século V a.c. é clássico, com certeza. E justamente por isso que fico na dúvida. As proparoxítonas do idioma grego são um pouco restritas, o que, nos "aportuguesamentos", gera erros.
Por exemplo: Perséfone está errado. Claro que, para uma deusa que come as sementes da romã dada por Hades e passa a ser, por um matrimônio, além de deusa da agricultura, a vigilante dos mortos, um nome equivocado não causa espantos.
Hipócrates também está errado. Bem dizem meus avós quando falam que os médicos não sabem do que falam e mal se recordam seus próprios nomes...
Demóstenes é outro erro. E olha que de oratória e retórica Demóstenes entendia...
Isso me traz de volta ao Aristóteles.
Será mesmo Aristóteles? Aristotéles soa esquisito...
Mas sem problemas. O iminente toque do interfone, que sei aproximar-se, me deixa inquieta. Cubro o quadro? Acho que meu aluno não vai se importar de ver o rosto de um desconhecido que significa muito para mim estampado ali. O rosto está estampado em todos os quadros mesmo. Atrás do vaso de flores, ao lado do gato, no ombro da moça e na cesta de frutas. Até no que é abstrato, com riscos e curvas, seu rosto está. Disforme. Contrariando sua estampa na minha mente. Nítida. Como seu cheiro na minha própria toalha de banho. Mas ela nunca foi usada por você...
O clarinete toca "Onde anda você" do Vinícius... é a preferida do meu vizinho. Me dá vontade de bater à sua porta e tirá-lo para dançar um bolero. Mas ele teria que largar o clarinete. Além do mais, deixar de pedir açúcar e pedir danças pode ser um passo muito grande. Sequer devolvi sua última xícara.
Errou um compasso. Eu senti.
Hora de abrir mais um pouco a janela, mesmo com o frio. Espero que ele não se importe com uma professora de moletom e meias. Mas falta ar nesse apartamento aqui.
Sei que não se importa. Está preocupado em como pedir uma segunda chance à namorada. "50/50, professora". É o que ele diz. "A culpa, quero dizer. Metade minha, metade dela".
E eu ouço. Abro uma cerveja, um vinho e escuto, balançando de leve a cabeça. Uma mistura de lamentos do clarinete e lamentos do meu aluno. No meio disso, meus próprios lamentos internos de 50/50.
Eu mesma queria outra chance. Mas o rapaz do quadro diz que não. E não fala mais nada. Só se esconde atrás das frutas na cesta. Não quer nem saber se metade também é dele. Mesmo que essa metade seja eu mesma.
Não preciso abrir a porta. "Yo ya conosco el camiño, prof... buenas noches".
"Buenas".
Acabou o ensaio do clarinete. Agora é a vez do meu rádio. Noel.
Depois do vinho, só o Noel me entende. Ele e a fita amarela ou o último desejo.
O último desejo para pintar o quadro. E para fechar a janela também. Para abrir outro vinho e derramar uma ou outra lágrima, que molha a ponta do cigarro que encosta na boca.
A coisa da rotina.
E depois de meia madrugada, de arte, música, bebida e vontade de segundas chances, um pouco de Filosofia não mata ninguém. A menos que esse "ninguém" seja Sócrates, é claro.
Mas acho que nenhuma autoridade me convidaria a suicidar-me. Não com cicuta. O que me lembra de ouvir Criolina, pra lavar a alma com sua música "Veneno".
Já me deixou. Já me envenenei. Sem convite mesmo. E, como último desejo pedi continuar viva. E me joguei nos livros e na confusão mental.
Por isso que o Aristóteles mora ali, na ponta da estante, me vigiando por todo o dia enquanto invento textos e mancho telas.
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