quinta-feira, 19 de maio de 2011

De même

Imagine se todos estivéssemos perdendo os sentidos.
Eu não enxergo mais. Você perdeu o tato. Eles perderam paladar, audição e olfato.
Como não vejo, alguém precisa me guiar. Você não pode, porque me tocar não faz sentido para você.
Eles me guiam, mas é tudo muito complicado.
Sem audição, não há como ouvir minhas solicitações e não posso usar o gestual porque sequer vejo o que estou fazendo.
Não ter olfato parece algo menos pior. Mas sem ele, não poderão sentir que algo cheira mal. Não poderão prever o risco iminente.
A perda de paladar pode ser mais tranquila. A comida é mastigável e, ao ser ingerida, alimenta mesmo assim. Pode-se comer à vontade. Mas não sentir o sabor das coisas pode ser fatal. É mais fácil engolir fel sem saber que gosto possui. Ao passo que também é mais fácil beber os piores venenos sem sentir.
Não ver me obriga a ter cautela. Ter cautela me custa disciplina. Principalmente durante e pós-desespero.
A falta de tato incomoda. Tocar as coisas já não é mais tocar. Não se sente mais. Ao menos na parte física.
Toda a fragilidade se instaura e com ela o princípio do caos e do desajuste. Tal qual vemos hoje em toda parte, por exemplo.
Buzinas soando loucas como se os outros fossem surdos. Impropérios dirigidos a todos os supostos infratores, como se as palavras já não possuíssem sabor.
Nas relações pessoais em geral. Quando acaba, é preferível que alguém fique surdo. Já que não se tem o que falar, também não há o que ouvir. E assim, montam-se totens gigantescos de carrancas de olhos fechados, ouvidos entupidos e por aí vamos...
Mas é claro, minha amiga, que sei que você não vem hoje me socorrer. Está surda, claro. Eu sei disso. Você pediu e agora carrega duas perdas. A falta de tato e a surdez te sobram.
Mas mesmo sem te ver, eu quero dizer algumas coisas.
Quero que saibas que estou aqui. Praticamente parada no mesmo lugar. Te olhando de longe. Esperando que você passe, naquela mesma hora, naquele mesmo lugar. Para te guardar. Para correr e te dar impulso, caso suas asas falhem e você não alce vôo da forma como sempre faz. Para te envolver e, com minhas próprias forças te proteger a cada vez que algo pesado ameaçar te atingir em pleno ar.
Para encobrir-te do sol se suas asas de cera e mel sugerirem derreter ao calor escaldante.
Apenas isso, minha cara. Pois sinto um prazer imenso em ter-lhe conhecido e guardado. Ainda que não me guarde, nem me vigie e menos ainda, me queira por perto. Apesar da surdez, sei que ouve essas palavras. Eu as direi eternamente no meu silêncio.


Mes mots secrets. 



Pardonne-moi... Je n'ai pas ta classe...

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