Uma caixa vazia é uma caixa cheia de ar.
Ar e escuridão.
De uma caixa supostamente vazia saem palhaços em molas que assustam à primeira vista, mas que depois divertem. Ou não.
De uma caixa supostamente vazia, saem bailarinos e sons que acalentam e fazem sonhar.
Ainda da mesma caixa supostamente vazia, saem fotografias e pedaços de tentativas de esquecimento.
Dessa caixa vazia saem trechos de solidão. Da solidão que faz querer se trancar em uma caixa escura e vazia.
Mas essa solidão é impossível e inalcançável, pois o escuro mora na caixa. O escuro, um pouco de ar e a própria caixa por dentro mora em si.
Dois corpos não ocupam o mesmo lugar. E um corpo grande e pesado, como é o fardo da verdadeira solidão, certamente arrebentaria o fundo da caixa e deixaria vazar, como uma caixa de Pandora, os frutos de uma relação de amor e ódio, beirando uma cópula, entre o escuro e os medos que a solidão carrega.
Frutos esses, parasitas do imaginário. Dessa relação maior do que simples simbiose é que se alimenta a solidão. Tem quem se apavore com os mortos. Muito justo isso. Eles estão não-sabemos-onde, e tudo o que restou deles encontra-se só e trancado em uma caixa escura.
Logo, uma caixa cheia de solidão e escuro, não é mais uma caixa vazia. É o lar de um Glutão de pesadelos, que tem entranhas feitas de pavor. Pavor da própria solidão. Paura. Em sua pureza insolúvel em água, álcool, maconha ou, por vezes, lágrimas.
Uma caixa vazia é uma caixa cheia de ar.
Ar e escuridão.
A menos que alguém retire a tampa, pois dessa forma, e também fazendo cortes pela extensão da caixa, a luz consegue penetrar.
Porém, a simples ameaça de uma tentativa de ver o conteúdo da caixa, alimenta o ser que lá habita. Não nos permitindo cortar o lacre, nem puxar a fita.
Uma caixa é, sem sombra de dúvida, uma ferramenta para manter olhos longe de seu conteúdo. Daí as caixas de presente que alimentam surpresas e caixões que sobrevivem lembranças. Uma forma tão antinatural, tão artificialmente criada, tão humana em seu design reto e duro é também medium para a vontade humana absoluta de dominar tudo aquilo que é natural. Escondemos nossos afetos e afeições em fitas e laços, mantemos a morte sob um disfarce de vida cerâmica em lâminas de madeira. Onde guardo os meus sonhos? Em caixas de pensamentos...
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