Essa noite foi difícil.
Uma das piores desses tempos aí que estão rolando há um tempo.
A janela só podia observar a figura pálida pela baixa luz a se retorcer sob os lençóis.
Podia ver as cores que emanavam da triste imagem que se formava sob seu olhar. Cores que queimavam e por outras cores eram apagadas.
Vislumbrou aquele olhar que alternava-se entre ígneo e lígneo. As mãos que se retorciam em gestos de desespero e a boca que se abria em sorrisos e se retorcia em pavor.
Acompanhou imóvel, sem nada fazer, aquela queima tendo o desejo e a desilusão como combustíveis.
Tentou despregar-se da parede para acolher as dores e acalmar a agitação, mas todo e qualquer esforço parecia inútil.
Nada poderia fazer para acalmar a sombra que agora choramingava e gemia de prazer e agonia. Tudo ao mesmo tempo. O calor que crescia embaçava os vidros e turvava a visão da janela. Ao mesmo tempo, era tanta sombra e tanta escuridão que a pouca luz não fazia a menor diferença. Sentindo-se impotente, preferiu fechar os olhos. Foi quando sentiu alargar-se e o vento chocou-se com algo pesado em seu espaço agora aberto. Lá embaixo o trânsito silenciou e a janela, que não teve tempo de fazer coisa alguma viu-se com um buraco dentro de si que agora iluminava uma cama silenciosa e vazia.
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