Ficou sentada em um banquinho de madeira onde havia feito umas pinturas logo que se mudou para o apartamento e percebeu que não possuía cadeiras e que, ainda que as tivesse, não caberiam ali.
Olhava para o trânsito, depois para o céu azul, apesar do frio, e novamente para o trânsito. Deixou que o sol batesse em seu corpo coberto com um vestido que usara para dormir e um casaco para evitar que o vento a incomodasse. Fechou os olhos para deixar que o refrão da música que tocava no rádio invadisse seu corpo quando o gato pulou em seu colo.
Acariciou o animal atrás das orelhas e sentiu seu corpo tremer com o ronronar felino. Olhou novamente através da janela e também imaginou. Imaginou qual daqueles transeuntes apressados na calçada poderia ser ele. Cores de casacos, tipos de andares.
Desistiu de escolher e resolveu decidir. Decidiu que ele andava como o cara do outro lado da rua. Bem devagar, como se não houvesse horário. Atravessaria devagar a rua quando o farol já estivesse fechado e tomaria um ônibus. Não decidiu para onde. Enquanto atravessava, seu casaco mudava de cor. Primeiro vermelho, que achou exagerado, depois azul, que combinava com ele, mas já que ela era quem decidia, agora ele usava um casaco preto, para combinar com os óculos que ela lhe dera ao ver passar um rapaz de óculos na calçada abaixo de sua janela. Primeiro eram de grau, depois deixou que ele estivesse de lentes para ver a diferença e decidiu-se por dar-lhe óculos escuros para evitar o sol.
Por não saber para onde ele ia, deixou-o andando dos dois lados da rua. Assim, um "eu" dele iria para um ponto de ônibus e o outro para o ponto em uma direção oposta à do primeiro. Ou do outro. Não poderia definir como primeiro e segundo aqueles que eram a mesma pessoa.
Parou de pensar banalidades e lembrou que ele usava casaco preto e óculos escuros e andava devagar, mas fazia tudo isso sem calças.
Então vestiu-o primeiro com calça social e viu que não combinava com o casaco. Deu-lhe um moletom, um jeans e uma de algodão para que experimentasse. O jeans venceu. Jeans em tons de azul com partes levemente desbotadas.
Faltava apenas o sapato. Ela deixou que o casaco continuasse mandando, mas quando viu o modelo dos óculos, percebeu que ele deveria usar all star. Colocou um par azul-escuro em seus pés. Deixou-o andando enquanto observava o resultado de sua criação.
Ele estava careca, constatou. Será que seria assim? Começou a experimentar chapéus na cabeça descoberta e lisa.
Uma boina, um chapéu panamá, uma touca de lã...
Resolveu experimentar os cabelos. Foi nos estereótipos de acordo com o conhecimento adquirido previamente.
Eram compridos. Não muito, apenas não haviam sido cortados ainda. Deixou em aberto a cor, assim como a cor da pele. Era viajar demais. Deu-lhe também uma barba por fazer.
Por causa do frio, ele se encolhia levemente com as mãos nos bolsos, o que deixava sua altura indefinida.
Observou o resultado obtido até ali e olhou para o gato que se esticava para ver a rua também perguntando-lhe em pensamento o que achara de suas idéias.
Começou então a aprofundar-se. Pensou em formatos de olhos e cores. Quando ia encaixar as opções no corpo andante, seu gato deu um salto em direção à janela, fazendo com que pulasse de seu banquinho para agarrar o animal. Seu coração estava disparado.
Colocou o bichinho no chão e deu-lhe ração. Abriu uma garrafa de licor e serviu-se. Quando estava um pouco mais calma, voltou para a janela com um cigarro entre os dedos. Acendeu-o. Deu a primeira tragada e virou-se para fora para continuar com sua montagem e viu, de cada lado da rua, um casaco preto, de óculos escuros, calças jeans e all star correndo em direção ao ponto de ônibus e dando sinal para o primeiro que passava.
Sentiu-se mal. Por culpa dela agora ele estava atrasado para ir seja lá onde estivesse indo. Quase pediu desculpas e deu seu banquinho de presente, mas lembrou que banquinhos não cabem em caixas de sapato e ficou apenas terminando seu cigarro e seu licor.
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